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Em frases com orações subordinadas causais, finais e temporais, lendo este post sobre Pontuação do blogue Livro de Estilo, as vírgulas utilizam-se conforme a posição dessas orações na frase. Se for no início ou no meio, levam obrigatoriamente vírgula; no fim, não. Penso, porém, que neste último caso não será gramaticalmente incorreto utilizar a vírgula, embora seja menos frequente.

Exemplos de orações causais retirados do post:

  • posição inicial (com vírgula): Porque estava a chover, resolvi ficar em casa.

  • posição medial (com vírgula a delimitar o início e o fim): Resolvi, porque estava a chover, ficar em casa.

  • posição final (sem vírgula): Resolvi ficar em casa porque estava a chover.

A minha questão é a de saber se se pode também escrever

  • Resolvi ficar em casa, porque estava a chover.

ou

  • Resolvi ficar em casa, para acabar o trabalho. (oração final)

  • A sr.ª D. Irene já tinha saído da quinta, quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra. (oração temporal)

em vez de, respectivamente,

  • Resolvi ficar em casa para acabar o trabalho.

  • A sr.ª D. Irene já tinha saído da quinta quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra.

que são outros exemplos do mesmo post.

Aditamento 1: Tanto quanto é do meu entendimento, quando a oração subordinada antecede a principal, separam-se ambas por uma vírgula. A minha dúvida refere-se ao caso em que a subordinada fica no fim da frase.

Aditamento 2: Outros exemplos já dados anteriormente, em comentário(s) meu(s) a esta questão. De «Gramática Portuguesa» para a antiga 4.ª classe, de Tomás de Barros:

  1. «Perdoa-lhe, porque não soube o que fez»;
  2. «Estimai, para que vos estimem»;
  3. «O comboio já tinha partido, quando chegámos à estação».

Mas também:

  1. «Pasteur foi um sábio de grande coração porque descobriu a cura da raiva».

E de «Breve Gramática do Português Contemporâneo», de Celso Cunha e Lindley Sintra:

  1. «Não veste com luxo porque o tio não é rico»;
  2. «Viera um vestido de marca, para que a vestissem com ele».
  • 1
    Isto é motivado por uma preferência pelo uso da vírgula, ou mera curiosodade? – Jacinto Nov 7 '15 at 19:42
  • Na verdade, com algumas locuções conjuntivas, parece-me necessária a vírgula, mesmo que a oração causal esteja no fim: "vamos ao banho uma vez que está calor." Sem vírgula não sabemos se é "vamos ao banho, uma vez que..." ou "vamos ao banho uma vez, que..." – Jacinto Nov 7 '15 at 19:50
  • @Jacinto Não é uma mera curiosidade. Quanto à preferência pelo uso da vírgula, posso dizer que não se trata disso. Consultando, agora, a "Gramática Portuguesa" de Tomás de Barros que era usada na antiga 4.ª classe, vejo exemplos como: 1. Perdoa-lhe , porque não soube o que fez; 2. Estimai , para que vos estimem; 3. O comboio já tinha partido , quando chegámos à estação. Mas também: 4. Pasteur foi um sábio de grande coração porque descobriu a cura da raiva.(continua) – Américo Tavares Nov 7 '15 at 22:48
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A vírgula poderá de facto ser usada para separar orações subordinadas adverbiais pospostas, mas arriscamo-nos a alterar o sentido da frase (de forma a que ela possa deixar de ser lida como subordinada adverbial), ou, no mínimo, a alterar o foco da frase.

Resolvi ficar em casa, porque estava a chover.

Comparando com a versão sem vírgula, este porque parece explicativo e não causal. Ou seja, transformaste subordinação em coordenação. A frase passa então a ser equivalente a:

Resolvi ficar em casa, [pausa] que/pois estava a chover.

Esta resposta no Ciberdúvidas admite que a vírgula possa ser usada para um "porque" causal, mas em todo o caso está-se a introduzir uma ambiguidade que da outra forma não existiria.

Vejamos então com para:

Resolvi ficar em casa, para acabar o trabalho.

A versão sem vírgula e esta em cima são bem diferentes. Esta põe o foco na resolução de ficar em casa, enquanto a versão sem vírgula na razão por que se resolveu ficar em casa (mas não tanto como prepor "para acabar o trabalho").

Por fim:

A sr.ª D. Irene já tinha saído da quinta, quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra.

O significado aqui é também diferente. Nesta versão com vírgula, parece se estão a apresentar dois factos relativamente independentes, em que o segundo se segue ao primeiro (aqui óbvio por causa de "já"), mas em que o primeiro dá enquadramento temporal ao segundo. Na versão sem vírgula, é mais fácil interpretar a oração com "quando" como oração adverbial que qualifica a outra, especialmente se movermos a oração com "quando" para o início da frase. Um exemplo análogo para a versão com vírgula:

O João chegou então a casa, quando [=altura em que] se deparou com a sua mãe morta no chão.

  • Na parte em que escreve "especialmente se movermos a oração com "quando" para o início da frase. ", veja o meu aditamento à questão: "Tanto quanto é o meu entendimento, quando a oração subordinada antecede a principal, separam-se ambas por uma vírgula. A minha dúvida refere-se ao caso em que a subordinada fica no fim da frase." – Américo Tavares Nov 7 '15 at 23:16
  • @AméricoTavares Certo, o que quero dizer é que o significado dessas duas frases ("Quando ... , a sr.a D. Irene..." e "A sr.a D. Irene já tinha saído quando...") têm significados semelhantes, distintos daquela com "... , quando ...". Simplesmente esta diferença é mais óbvia quando temos "quando" no início. – Artefacto Nov 7 '15 at 23:57
  • Também vejo as coisas assim. Com uma diferençazita no primeiro exemplo. Parece-me que, mesmo com vírgula, porque estava a chover vai ser visto como a causa de ficar em casa. Acho que o que muda é o foco, à maneira do teu exemplo seguinte. É claro que uma causa explica a resolução de ficar em casa; o objetivo, para acabar o trabalho, também a explica. – Jacinto Nov 8 '15 at 11:09

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