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Em português, o Pretérito Perfeito Composto do Indicativo tem um uso bastante diferente da maioria das outras línguas próximas; possui aquilo a que por vezes se chama um aspeto iterativo. A única exceção moderna que conheço são frases como "tenho dito" e "tenho concluído". Isto é verdade quer em Portugal, quer no Brasil, o que sugere que é um fenómeno antigo. Exemplos tirados do CETEMPúblico:

Os últimos anos não têm sido fáceis para Artur Jorge.
Dos lançamentos que a Lusomundo tem feito do seu catálogo Goldwin, este «Jardim Profano» é seguramente um dos mais insólitos.

O significado é diferente de foram fáceis e de fez; em ambos os casos há uma ideia de repetição, ou no mínimo de continuidade/durativa na primeira frase.

Este não é de todo o caso da forma correspondente do conjuntivo:

A: Espero que tenhas compreendido.
B: Compreendi, sim.

Adicionamente, o PPC é a forma onde é menos provável que "haver" seja usado como auxiliar. A frase:

[Q]uem não achar verdade e exactidão no que hei dito e hei de dizer, tem à mão o remédio, mostre-me a verdade[...]

É engraçada, mas dificilmente seria dita hoje em dia e a frase:

Ele há estudado muito.

Soa mais a espanhol do que a português e (talvez por isso) não vejo qualquer aspeto iterativo.

Perguntas:

  1. Quando é se deu a transformação?
  2. O que levou o português a seguir este caminho, quando no espanhol, pelo contrário, o fenómeno é até a forma composta tomar o lugar da simples na maioria das situações (em regiões como Madrid)?
  3. A muito forte preferência por ter estará relacionada? Em exemplos históricos, está o uso de "haver" também associado a uma ideia iterativa?
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    Não consigo perceber pela pergunta o que é o aspeto iterativo. Podes pôr um exemplo explícito? Para os novatos. :) – ANeves Oct 1 '15 at 9:45
  • @ANeves Acrescentei dois exemplos. – Artefacto Oct 1 '15 at 11:50
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    @Jacinto Experimenta procurar [ter].[vp*] [vk*] em corpusdoportugues.org, século XVIII. Verás que há ocurrências do composto sem ideia de iterativa ou durativa. Exemplo: "... que entenda à vista do que me dizeis, porém juro-vos que ainda nao tenho visto coisas que me pareçam melhor ou mais dignas de ser amadas." – Artefacto Oct 2 '15 at 17:08
  • 1
    Estou a encontrar as duas interpretações, e casos ambíguos. Os dois sentidos devem ter sido usados em paralelo – Jacinto Oct 2 '15 at 17:46
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Quando se deu a transformação?

Procurando superficialmente uma publicação achei:


Mendes, Ronald Beline. "A evolução do passado composto em português."Todas as Letras-Revista de Língua e Literatura 7.2 (2009).

“A principal questão que motivou nossa análise foi: como a perífrase TP deixou de ser usada para expressar aspecto perfectivo (resultado), passando a expressar apenas imperfectivo (duração e iteração)?”

“o uso imperfectivo de TP torna-se prototípico no século XIX, em detrimento de seu uso perfectivo – algo bastante distinto do que se observa no início do século XVIII e na passagem de um século ao outro.”

“Juntamente com a pergunta sobre “como” se deu a mudança, poderíamos perguntar “por que” ela ocorreu… O exame qualitativo dos empregos de TP em séculos passados nos mostra que a diferença entre o resultativo (resultado presente de uma ação ou evento passado) e o imperfectivo (alongamento do passado para o presente) pode residir na focalização de um ou outro ponto de um esquema temporal – aspectual – visualizado pelo usuário da língua.”


Acho que é melhor atender as outras perguntas por separado, p.e. existe diferença entre o pretérito composto em espanhol e português?. Mas :P…


Em:

Pereira, Aline Amarante. "O uso do pretérito perfecto compuesto e indefinido por estudantes brasileiros El uso del pretérito perfecto compuesto e indefinido por hablantes brasileños."

“O pretérito composto expressa uma ação repetida e uma continuação de uma ação até o momento presente. Já o pretérito compuesto expressa uma ação passada que mantém uma relação com o momento presente da enunciação, seja em ação, seja em sentido. Acredita-se que seja esse um dos pontos da dificuldade do brasileiro em compreender o pretérito compuesto, pois, embora seja similar ao pretérito composto do português, difere-se com relação ao uso e em português quase não se utiliza esse tempo verbal e outra dificuldade é pelo fato de o pretérito composto do português, em geral, ser substituído pelo tempo simples."

"O pretérito compuesto é mais utilizado no espanhol peninsular (Espanha), do que no espanhol da América. Alguns autores destacam que a variante americana não vê diferenças entre os pretéritos indefinido e compuesto, o que os leva ao uso de ambos da mesma maneira”


É importante notar que não existe um espanhol de América só, eu tenho falado com peruanos que utilizam indistintamente o simples e o composto, em quanto eu, centroamericano, os utilizo de jeito distinto, além o jeito em que os espanhóis usam o composto também é diferente ao mesoamericano. O que posso confirmar é que existem pelo menos três variações do composto em espanhol.

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  • Parabéns. Isto é que foi uma entrada de leão na comunidade: esta pergunta estava sem resposta há meses. – Jacinto Aug 24 '16 at 21:25
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    Também pode ser interessante notar que no asturiano (e que saiba eu também no mirandês) a construção tener (ter) + part. passado só tem o significado iterativo/imperfectivo, não só no presente como em português. Não sei quando dito uso começou, e a minha cópia da história da língua perdeu-a Correios =\ pergunto-me se também existe no galego. – user0721090601 Aug 25 '16 at 21:24
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A frase ele há estudado muito está errada.

Ele - Indica que a frase refere uma 3ª pessoa do singular

muito - É simplesmente um nome comum

A questão parece estar em há estudado . Enquanto que no castelhano isto seria correcto, em português simplesmente não é correcto.

- denota um acontecimento presente.

Estudado - denota um acontecimento passado


Sim, existe a excepção onde Há bocado , Há três anos.

No entanto não é em sim um passado, mas sim um presente, no sentido em que existe uma distancia temporal. três anos, x tempo, distância temporal

Desta forma, concluí-se que Ele há estudado muito é uma frase errada, e que, em bom português seria "Ele estudou muito" ou "Ele havia estudado muito". Devido a isto, presumo que não seja necessário responder às questões, visto que elas baseiam-se numa premissa errada, demonstrada por esta resposta.

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    Isto não responde de todo à pergunta, além de metade estar errado ou posto em termos muito imprecisos. – Artefacto Jan 30 '16 at 13:47

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