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Vejamos com um exemplo.

O pessoal, em Braga reza, no Porto trabalha, em Coimbra estuda, e em Lisboa diverte-se.

Agora se substituirmos o o pessoal pelo indeterminante do sujeito se, o que é que se faz em Lisboa?

Em Braga reza-se, no Porto trabalha-se, em Coimbra estuda-se, e em Lisboa diverte-?????

Diverte-se-se? Para além da questão (da falta de) estética diverte-se-se é gramatical? (Podemos dizer goza-se, mas não é isso que vem ao caso.)

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  • Não me soa mal dizer simplesmente «e em Lisboa diverte-se». Sei que no castelhano há uma regra explícita de suprimir um dos ses nestos casos e imagino que o português teria parecida, não é? (não tenho uma gramática portuguesa na minha escrivaninha para consultar ou tentaria achá-la) Sep 30, 2015 at 3:39
  • @guifa A mim não me soa muito bem "em Lisboa diverte-se" (quem é que se diverte?)... Para mim Em Braga reza-se ... e em Lisboa uma pessoa diverte-se. E definitivamente, se-se não é uma opção.
    – Artefacto
    Sep 30, 2015 at 9:03
  • @Artefacto o meu ouvido é obviamente muito influenciado pelas outras línguas ibéricas haha por isso só escrevi um comentário e não uma resposta Sep 30, 2015 at 11:50

2 Answers 2

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Não, porque não é possível a coocorrência de dois pronomes clíticos com o mesmo som, mesmo que tenham funções sintáticas distintas.

Uma pessoa diverte-se não pode ser reformulado como *diverte-se-se, com um se anticausativo, e um se impessoal. Da mesma forma, apresentei-me a mim próprio não pode ser reformulado *apresentei-me-me, em que o primeiro me é dativo e o segundo acusativo. Esta última forma é ainda excluída pelo facto de não ser possível integrar clíticos que não têm formas distintas para o acusativo e para o dativo (por exemplo, não podemos reformular entregámo-nos a vocês com *entregámo-nos-vos).

Na discussão sobre este assunto, em que de resto me baseei acima, a Gramática do Português da Gulbenkian (2013, p. 2236), contém uma nota que compara o português com o italiano e que reproduzo aqui parcialmente por achar interessante:

O português [...] não permite [...] a coocorrência entre se impessoal e se inerente ou se reflexo [...]. Outras línguas românicas, como, por exemplo, o italiano, comportam-se diferentemente. Assim, a frase *lava-se-se é agramatical em português, mas a frase correspondente em italiano é possível: ci si lava (ci = impessoal; si = reflexo). Embora o pronome impessoal tenha normalmente em italiano a forma si (idêntica à forma do pronome reflexo), si (impessoal) pode ser convertido em ci, em italiano-padrão, por forma a evitar a sequência agramatical si si [...]. O português não dispõe de uma estratégia semelhante à do italiano-padrão, pelo que só é permitida a ocorrência de um único pronome se por domínio oracional.

Guifa interroga-se nos comentários se é possível em português o clítico se ter um significado duplo (se impessoal/nominativo e se inerente, anticausativo ou reflexo). Este tipo de fenómeno designa-se de haplogia sintática e ocorre de facto em português noutras circunstâncias. João Peres e Telmo Móia dão estes exemplos (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, p. 101):

Era melhor que eu te dissesse a verdade (do) que [que] te viessem outros contá-la.
Acabei de almoçar [com] com quem tu almoçaste ontem.

No entanto, o tipo de combinação que Guifa sugere é marginal em português. Afonso Miguel, na sua tese de mestrado, depois de defender a mesma tese que esta resposta (embora indique que a razão para não ser possível combinar dois clíticos se é discutível), tem isto a dizer sobre a haplogia (p. 50, ortografia original, citações e notas de rodapé omitidas, negrito meu):

[V]erifica-se uma certa tendência entre os falantes (do português europeu) para usar verbos intrinsecamente pronominais em construções impessoais do tipo em causa. Nestes casos, verifica-se sistematicamente um fenómeno de haplologia sintáctica, sendo suprimida uma das duas partículas pronominais se. A gramaticalidade das construções resultantes é, no entanto, duvidosa para a generalidade dos falantes:

    ??Por vezes, esquece-se de que há muitas crianças que passam fome.

Para ilustrar ocorrência do fenómeno de haplologia descrito no parágrafo anterior, recorri ao corpus CETEM Público. Após uma pesquisa limitada aos verbos queixar-se e esquecer-se (de), encontrei apenas o seguinte exemplo de haplologia:

    «Reconhece-se importância a quem grita mais alto e esquece-se de que quem grita mais alto é porque não se sente ouvido nem obedecido, ou não tem razão.»

O autor tem mais à frente um explicação alternativa para esta frase — pode tratar-se de uma confusão com uma forma não pronominal de esquecer.

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  • A citação menciona que o doble ocorrência não é permitido, mas não diz nada sobre a possibilidade de ter um significado doble (é dizer, usar «diverte-se» com significado impessoal e reflexo) Dec 4, 2015 at 4:38
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    @guifa Não encontrei nada a esse respeito, mas se essa estratégia existisse em português, seria estranho não a mencionar (e mencionar o que acontece em italiano). Isto corresponde à minha sensibilidade; para mim diverte-se só é possível com sentido impessoal se existir um sujeito como "uma pessoa", realizado ou não: "O que é que uma pessoa havia de fazer aqui? Diverte-se!"
    – Artefacto
    Dec 5, 2015 at 18:22
  • @guifa Encontrei informação relevante para a questão que levantaste.
    – Artefacto
    Dec 17, 2015 at 0:04
  • bom encontro! Também outra possibilidade (aparte de confusão pela forma não pronominal) poderia ser influência das línguas vizinhas (mas não sei como é no galego ou mirandês, mas é o normal no asturiano e no castelhano, esse último pode ter —ao mesmo tempo por «haplogia sintática»— três significados diferentes, pronominal inherente, dativo ético, e impessoal!) Dec 17, 2015 at 3:23
  • Encontrei este exemplo de haplogia no Económico: «Nessa altura, de alguma forma, chegou aos ouvidos de Ernst, Gunther e Ludwig, o seguinte ditado popular: "em Lisboa diverte-se; em Coimbra estuda-se; em Braga reza-se e no Porto trabalha-se"». Só confirma a opinião que eu tenho deles.
    – Jacinto
    Dec 17, 2015 at 9:33
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não, simplesmente diverte-se.

Assim:

Em Braga reza-se, no Porto trabalha-se, em Coimbra estuda-se, e em Lisboa diverte-se.

Percebe-se bem o contexto e o significado da frase. Parece mais uma expressão popular para designar o que se faz em cada cidade.

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