4

Esta frase não me soa bem, mas não consigo explicar porquê. Eu diria:

Estas são as primeiras perguntas que temos que fazer a nós próprios.

A seguinte também não me parece possível:

*Estas são as primeiras perguntas que temos que fazer-nos a nós próprios.

Por outro lado, se não for reflexivo:

Estas são as primeiras perguntas que eles têm de fazer-nos.

Com outros verbos, não vejo nenhum problema:

A primeira coisa que temos de fazer é lavar-nos.
A primeira coisa que fizemos foi destruir-nos a nós mesmos.

Nestas construções, o pronome reflexo nos é mesmo obrigatório; a seguinte frase não é possível:

*A primeira coisa que fizemos foi destruir a nós mesmos.

A minha intuição está correta? Porque é que não posso usar o nos (ou pelo menos não devo) neste caso, quando noutras circunstâncias é obrigatório?

P.S.: preferia não entrar numa discussão ênclise vs. próclise; o leitor pode substituir mentalmente "fazer-nos" por "nos fazer" se preferir.

  • good question. I'd like to hear what grammarians have to say about it. – Centaurus Sep 15 '15 at 23:14
  • Também gostei. Senão não teria respondido. Mas não posso votar: hoje esgotei os meus votos. – Jacinto Sep 15 '15 at 23:28
  • O teu P.S. não faz sentido: podes usar o nos, só que no lugar certo. Num dos exemplos o nos é redundante, mas essa redundância está legitimada pelo uso. – Jacinto Sep 15 '15 at 23:37
  • @Jacinto És capaz de ter razão. Vou então rasurá-lo. – Artefacto Sep 15 '15 at 23:43
2

A frase do título não soa bem e não é gramatical, por causa do que fazer-nos: a conjunção que pede a próclise. A alternativa gramatical mais próxima é pois:

(1) Estas são as primeiras perguntas que temos que nos fazer.

A segunda já está bem:

(2) Estas são as primeiras perguntas que temos que fazer a nós próprios.

A terceira está mal pela razão anterior, a conjunção que pede a próclise:

(3) Estas são as primeiras perguntas que temos que nos fazer a nós próprios.

É claro que nos + nós próprios é um pleonasmo, mas é pleonasmo legítimo usado para enfatizar o objeto de fazer. Agora as alternativas (1) e (3) são extremas: a (1) é a que dá menos ênfase ao objeto, a (3) a que dá mais.

Na quarta também me parece melhor com a próclise, mas estou menos seguro:

(4) Estas são as primeiras perguntas que eles têm de nos fazer.

Nos exemplos seguintes, a razão de não haver problema não é os verbos serem diferentes, é que já lá não temos o que nem qualquer outra coisa a pedir a próclise. Consideremos os seguintes exemplos, que usam lavar e destruir em construções idênticas à do título da pergunta:

(5) A primeira coisa que nos disseram foi que temos que lavar-nos

(6) A primeira coisa que nos disseram foi que temos que destruir-nos

Temos o mesmo problema de novo. E para o corrigir baste de novo passas da ênclise para a próclise:

(5a) A primeira coisa que nos disseram foi que temos que nos lavar

(6a) A primeira coisa que nos disseram foi que temos que nos destruir

A última frase da pergunta está incorreta por causa de destruir a nós mesmos: destruir pede um objeto direto: nós destruímos uma casa, não destruímos a uma casa. O mesmo se passa com lavar.

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  • Peço desculpa só o feito depois de colocar a pergunta, mas entretanto editei-a a deixar claro que não me queria focar na questão da posição do clítico, que de resto é discutível (sim, a próclise é aqui mais comum mas apenas 4x no CETEMPúblico para ter de/que fazer). – Artefacto Sep 15 '15 at 23:29
  • Bem, talvez haja outra forma de as corrigir, mas eu prefiro a via mais simples. Acho que as minhas frases estão todas corretas. – Jacinto Sep 15 '15 at 23:33
  • Ah OK, então concluo que não achas nada de errado com "as perguntas que temos de nos fazer"? É de facto possível que tenha sido isso a levar-me a pensar que havia algo de errado com a frase. – Artefacto Sep 15 '15 at 23:41
  • Eu não vejo nada de errado com ela. – Jacinto Sep 15 '15 at 23:43
  • 1
    Acho que a posição do pronome é de facto parte do problema, mas não todo. "perguntas que temos que nos fazer" parece-me já aceitável, mas não tão bom como "que fazer a nós próprios". Ainda pior: "perguntas que ele tem de se fazer". Em todo o caso, isso levou-me a procurar respostas no sítio errado, porque "nos" é objeto indireto nas 1as frases e direto nas 2as. A razão pq se pode omitir "nos" com fazer é porque o objeto indireto pede preposição, mas o direto em geral só é preposicionado se for usado de pleonasticamente (entre outras exceções que não vêm ao caso). – Artefacto Sep 16 '15 at 7:00
2

Esta está correta:

Estas são as primeiras perguntas que temos que fazer a nós próprios.

A transitividade de "fazer", neste caso, é a mesma que a do verbo "perguntar", ou seja, pede um objeto indireto. Já esta:

Estas são as primeiras perguntas que temos que fazer-nos a nós próprios.

A transitividade está repetida, tanto pelo sufixo "-nos" quanto por "a nós próprios". Portanto, está incorreta.

Estas são as primeiras perguntas que eles têm de fazer-nos.

Esta está correta, com ressalvas. O sufixo realiza a função de objeto direto ("a nós"), embora aqui o uso de ênclise seja desencorajado. Uma forma mais gramaticalmente correta seria:

Estas são as primeiras perguntas que eles têm de nos fazer.

Já estas estão ambas gramaticalmente incorretas, ou corretas com ressalvas:

A primeira coisa que temos de fazer é lavar-nos.

A primeira coisa que fizemos foi destruir-nos a nós mesmos.

Reescritas corretamente, seria:

A primeira coisa que temos de fazer é nos lavar.

A primeira coisa que fizemos foi destruir a nós mesmos.

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  • Questão da posição do clítico à parte, não concordo com esta resposta. Não tem que ver com a repetição, "destruir-nos a nós mesmos" está com certeza correto (e posso arranjar fontes se quiseres). No entanto, tocaste num ponto que deve ser importante: na frase original, "a nós póprios" é complemento indireto, mas nas outras é direto. – Artefacto Sep 15 '15 at 23:26
  • Bom, então fico no aguardo de suas fontes. O emprego do sufixo + objeto indireto é pleonástico, a meu ver. – Leonel Sanches da Silva Sep 15 '15 at 23:32
  • @Artefacto É pleonasmo, mas aceite. Vejam este engarnarmo-nos a nós próprios tido por corretíssimo. – Jacinto Sep 15 '15 at 23:59
  • @CiganoMorrisonMendez Não só é aceite como por vezes é necessário para desfazer ambiguades. Por exemplo, "Como são idênticas as formas do pronome recíproco e do reflexivo, pode haver ambiguidade com um sujeito plural. [...] Costuma remover-se a dúvida fazendo-se acompanhar tais pronomes de espressões reforçativas especiais. Assim: a) para marcar expressamente a acção rereflexiva, acrescenta-se-lhes, conforme a pessoa a mim mesmo, a ti mesmo, a si mesmo, etc.: Joaquim e António enganaram-se a si mesmos" (Breve Gramática do Português Comtemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra. – Artefacto Sep 16 '15 at 6:43

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