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A frase vem da canção Jajão, também aqui com letra, do cantor angolano Master Jake. Jajão significa em Angola conversa para enganar. Ora Edno Pimentel, num artigo publicado em Maio passado na revista angolana Nova Gazeta e reproduzido aqui no Ciberdúvidas, classifica este uso de "me morrer" como uma liberdade artística que ele, Edno Pimentel, professor, não se pode permitir. Diz ele:

Se eu fosse cantor também tomaria a ousadia de inventar, criar novas palavras. Sorte têm eles, pois eu ainda não me posso dar ao luxo de "morrer alguém."

Ora, para mim a expressão "dizes que me morres" soa um pouco estranha, e possivelmente "morres" é ali usado num sentido não literal. Mas a construção "me morrer" ou "morrer-me" em si mesma não me parece estranha. E o que eu gostaria de saber é se "me-morrer" ou "morrer-me" é gramaticalmente correto ou meramente tolerável como liberdade artística.

Enviei esta dúvida ao Ciberdúvidas, e eles confirmaram a minha suspeita que a frase da canção é gramaticalmente correta. Dou pormenores na minha resposta. Infelizmente eles tiraram o artigo do Edno Pimentel da net!

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A mim a frase também não me soa nada bem, e é bem possível que esse seja um uso comum em Angola e que, como o Prof. Edno Pimentel diz, me é objeto direto nessa frase (ele fala em "morrer alguém", não "morrer a alguém"). Nesse caso não me parece gramatical.

Mas se for complemento indireto, é uma regência comum do verbo morrer, como nestas frases:

O pássaro morreu-lhe nas mãos.
A minha mãe morreu-me no mês passado.

O significado é parecido com morreu nas mãos dele e simplesmente morreu (na segunda), mas é mais enfático; dá a ideia de que a morte teve um impacto emocional no sujeito.

A forma parece-me relativamente informal, mas, ainda assim, uma pesquisa no CETEMPúblico por [lema="morrer\+.*" & func=".*DAT"] | ([func="DAT.*"] [lema="morrer"]) teve 86 resultados. Alguns exemplos:

A senhora ajeita o cabelo, deixa o sorriso morrer-lhe na face e responde com ar severo:
Se ele me morre nas mãos com uma overdose, de quem é a responsabilidade?"
«Não, não podes imaginar, porque nunca te morreu um irmão."

Este tipo de contruções existem com outros verbos:

A bolo desfez-se-lhe nas mãos.

E num uso mais popular:

Não me desmaies agora!

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  • 1
    Ora bem. Será que é objeto direto? Não há nada na frase que indique que o seja. a única coisa que eu acho estranha é o contexto, porque gramaticalmente não é diferente de "se ele me morre nas mãos..."
    – Jacinto
    Sep 19 '15 at 10:55
  • @Jacinto Acho que é esticar dizer que me é indireto em "tu dizias que me morres, que me adoras", especialmente dado que me é claramente direto na oração com adorar.
    – Artefacto
    Sep 19 '15 at 11:05
  • "Disseste que me telefonavas, que me avisavas:" o primeiro me é indireto, o segundo é direto, nada de mais. Não tenho razão nenhuma para supôr um me direto_ sem sentido ou sentido obscuro, quando o posso interpretar como indireto mais inteligível.
    – Jacinto
    Sep 19 '15 at 11:15
  • 2
    @Jacinto Point taken. Mas eu não sei quase nada sobre a variedade Angolana, e portanto não arrisco dizer que esse "me" é dativo. Mas há mais problemas. Em "tu dizias que me morres", não faço ideia que é que "morrer" significa. O uso do presente sugere que "morrer" significa algo com efeito agora. Ele não diz "tu dizias que havias de me morrer"... Portanto deve ser um uso de "morrer" não standard e em que possivelmente o verbo é transitivo direto.
    – Artefacto
    Sep 19 '15 at 11:35
  • É verdade. Eu tento seguir o princípio de na dúvida, pro réu. Portanto acho que o Edno Pimentel é que tinha a obrigação de demonstrar que morrer é ali transitivo, mas ele limita-se a insinuá-lo.
    – Jacinto
    Sep 19 '15 at 11:42
5

O significado do verso terminado em "me morres" aqui é o mesmo da frase abaixo:

Estavas mentindo quando tu dizias que por mim morrerias. Nota: futuro do pretérito condicional, urgh.

O significado aqui é de que a pessoa amada disse estar disposta a morrer pelo cantor, mas era mentira.

O verbo morrer, pelo pequeno uso, soa estranho. Ao substituir por outros verbos, vê-se a construção:

Era só Jajão, / Tu dizias que me AMAS, que me adoras, baby!


Como está no artigo que o OP cita como fonte, este uso incomum trata-se de liberdade poética:

[Edno Pimentel]: Se eu fosse cantor também tomaria a ousadia de inventar, criar novas palavras.[ref]

A conjugação proibida do verbo morrer é usada de propósito pelo cantor, e então torna-se admissível. A licença poética também é regra gramatical, e dela advém boa parte da evolução da língua, quando o texto poético cai no gosto dos falantes e altera seus hábitos.[citação, p86]

Alguns verbos, por motivo de desuso, carecem de conjugação. Um bom exemplo é o verbo explodir, que até meados da segunda metade do século XX não tinha conjugação na primeira pessoa (não se admitia que alguem se explodisse, o que não é o caso hoje em dia, infelizmente).

Contudo, esta perspetiva não era consensual, como bem documenta o registo que, passados alguns anos, Rebelo Gonçalves fez de expludo e expluda no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, publicado em 1966; nesta obra, as referidas formas estão marcadas com um asterisco, de modo a indicar que se trata de formas teóricas, suscetíveis de uso efetivo e não reprovável.
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/verbo-explodir/10082

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  • Tou de acordo com a tua interpretação de "me morres". Não estou familiarizado com esse uso. Não sei se é comum em Angola. Também nunca tive dúvidas acerca da conjugação de "morrer" simples: nem é assim tão pouco usado. A questão que continua por responder é se a conjugação pronominal de morrer, "tu morres-me" é correta.
    – Jacinto
    Sep 14 '15 at 17:44
  • 1
    Li agora a tua resposta com mais atenção, e há uma coisa de que discordo. Amar é transitivo, por isso se pode dizer eu amo alguém, eu amo-te. Mas isto não justifica que se possa fazer o mesmo com morrer, porque morrer é intransitivo: não se pode dizer eu morro alguém. E o argumento do Edno, (não sei se leste o artigo dele, tem o link na pergunta) é que não é gramatical dizer-se tu morres-me.
    – Jacinto
    Sep 17 '15 at 7:43
  • 1
    @Jacinto A gramática admite ser quebrada em textos poéticos/artísticos/musicais. Não estaria correto dentro da norma culta em um texto sério usar esta forma, mas trata-se de música. Alterei a resposta para acomodar a liberdade poética.
    – Mindwin
    Sep 17 '15 at 13:28
5

É verdade que, como diz Edno Pimentel, não se pode morrer alguém. Mas isto não impede que se possa dizer, por exemplo, se me morres, não saberei o que fazer. O Artefacto noutra das respostas apresenta vários destes usos de morrer-me. O me aqui significa que a morte da outra pessoa me afetaria. Chama-se a isto o dativo de interesse. Coloquei esta questão ao Ciberdúvidas, e eles confirmaram-me que o me morres na frase da canção pode ser entendido como dativo de interesse, e a frase é portanto gramaticalmente correta.

Eu escrevo na pergunta que acho a frase estranha. A razão é esta. O cantor diz dizes que me morres. O meu entendimento imediato disto é que a moça lhe disse eu morro-te. Ora uma coisa é eu dizer não me morras; ai se me morres, indicando o me que a morte da outra pessoa me abalaria. Outra coisa é eu dizer eu morro-te, indicando o te que a minha morte te abalará. É gramatical na mesma, mas é duma presunção desmedida. Deve ser por isso que se ouve o pai dele morreu-lhe há dois dias; ele morreu-me nos braços, mas não me lembro nunca de ouvir eu morro-te ou casa comigo, ou eu morro-te (ou então é só a mim que não dizem essas coisas).

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Em Angola ... A palavra "jajão" significa "simular/fingir" e/ou "Conversa para enganar ou convencer. = LÁBIA, PALAVRÓRIO".

E ... Usa-se informalmente a palavra "morrer" para designar amor/paixão/atração.

Ex: Estou a morrer esta dama (caidinho por esta moça); Ontem quando cheguei no boda, as damas todas me morreram (ontem quando cheguei na festa, as meninas não tiravam os olhos de mim/estavam caidinhas por mim); Tu dizias que me morres (tu dizias que me amavas).

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  • Muito interessante. Era esta a explicação que nos faltava.
    – Jacinto
    Mar 31 '16 at 12:01

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